História Inventada

A diferença entre mentiras e histórias de faz-de-conta.

Dor

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Pode ser só impressão, mas parece que o canto é mais bonito quando é de lamento.

Escrito por Rafael

2 de junho de 2009, 2:36

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Digressão

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A incerteza da partida instaurou-se. Já haviam se despedido e o impasse persistia. Nenhum gostaria realmente de partir, mas era preciso. A hesitação existia não pela possibilidade do acontecimento de algo mais e sim pelo temor de deixar o algo já ocorrido, como se assim ele pudesse se perder furtivo. Mais um cumprimento e pedido de licença e, então, um passar de pernas carente de firmeza. Olhou mais uma vez para trás e o outro acenava. Parou. Acenou de volta sorrindo, tornou-se a virar e foi decidida. Quanto tempo fora perdido ali com dizeres de despedida é incalculável e inútil. O que realmente importou ali, naquele instante, foi que a partida pudesse significar agora afluência.

Escrito por Rafael

13 de maio de 2009, 4:28

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Mande-me lembranças

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E no verso do cartão-postal lia-se:

A viagem é boa e feliz, mas os dias passados já são tantos que o banzo me aperta o peito e me acho no tempo de voltar para casa. Saudades.

Escrito por Rafael

, 4:12

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Mentira e verdade

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Dizia coisas escabrosas e não tinha nenhum pudor. Sequer corou-se ao ouvir uma censura e, mais que depressa, explicou:

- Mas é literário! Não que tivesse acontecido, mas não quero dizer que não aconteceu!

Escrito por Rafael

7 de janeiro de 2009, 0:59

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Traição

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Não tenho dúvidas em relação ao meu amor, nunca questionei. Mas agora já passou da hora de dormir e o desejo começa a me corroer. Hesitei, alguns passos adiante outros para trás; fosse apenas saudade não teria entrado no banheiro. Não que quisesse por a prova qualquer coisa, nem teria pensado coisa igual. Estava apenas agindo por desejo e pela razão. Não te convenceria do contrário, afinal, lucidez não faltou-me. Era desejo e, sinceramente, desejei. Estive certo todo o tempo e pude contemplar minha certeza. Contemplação então virou euforia, e euforia prazer. Senti-me bem, estava bem.

Ao terminar, fiquei um pouco enojado e tentei me condenar. O remorso veio brando e pus-me religioso e orei. Oração silenciosa e mediúnica, sem qualquer pensamento que pudesse traduzir-se em verbo. Estava limpo para que pensamento nenhum pudesse materializar-se. De pulmão a pleno ar e mente ofegante, girei a maçaneta. Não podia estar melhor.

Escrito por Rafael

, 0:40

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Celebridades

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Fama tem seu lugar na fantasia humana. No tempo da abrangência social da internet e do surgimento das novas celebridades por este canal, o tema não apenas está em voga como povoa as mais inocentes mentes. Um amigo escreveu sobre a beleza do sucesso, o que me levou a algumas reflexões sobre o assunto.

Altieres diz em seu texto que, apesar da difusão, a idéia de que “o sucesso não é bem visto” não condiz com a realidade. As pessoas realmente admiram e são inspiradas pelos famosos de forma mais intensa que sentem inveja de poderem ocupar seus postos. Acho ímpar distinguir aqui que essa inveja, quase impessoal devido a distância entre os dois pontos, invejado e invejoso, reflete muito mais o sentimento de reconhecimento da condição do ídolo e admiração de seus atributos que o sentimento propriamente dito de possuir tal condição. As celebridades ascendentes do povo fascinam e dão luz à possibilidade de que um processo similar possa acontecer com qualquer um, permitindo a admiradores tornarem-se admirados. É uma política de incentivar a ascensão dos pares para viabilizar, mesmo que apenas como exercício da imaginação, a sua própria ascensão.

Eu acredito, ainda assim, no desdém do bem sucedido. Ilustro com o fato de que há pessoas que idolatram Garrincha em detrimento do Pelé: “Garrincha é que era bom! E morreu pobre, sem desfrutar luxo.”. Envoltos à afirmação, jazem os argumentos de que Garrincha jogava por paixão e que ele não se promoveu comercialmente. Não jogava por dinheiro e, assim, nunca enriqueceu de verdade. A proposta não possui validade para desmerecer Pelé simplesmente porque ele enriqueceu. Foi um jogador excepcional como Garrincha e se provou bom administrador - ou sensato o suficiente para procurar um - e tirou proveito de sua imagem comercialmente. Esse tipo de sentimento de repulsa por quem alcançou fama e dinheiro é particularmente compartilhado entre pseudo-intelectuais. São pessoas que lamentam-se por não terem tido mesma oportunidade ou sorte que outros para serem bem sucedidos e orgulham-se de, supostamente, deterem tanto quanto ou mais talento. Resignam-se e fazem da lamuria mais que canto de perdedor, mas soberba de quem acha que é melhor e não é reconhecido. É uma postura de negação do bem sucedido enquanto alheio, ao invés do enaltecimento do bom, seja alheio ou próprio; é uma inversão de valor.

Por outro lado, não há como negar que exista a tara pelas celebridades. Fluem dela duas possibilidades não necessariamente apartadas entre si nos detalhes: o popular que ganha fama por aparente sorte, já comentada, e o venturoso que a encontra por algum mérito de forma aparentemente inevitável. O fã, comumente, identifica no seu ídolo características que, para si, são louváveis e que gostaria de possuí-las. Características como hábito de leitura, proeficiência em algum instrumento musical etc poderiam inspirar positivamente, tornando a inveja uma coisa boa, caso fossem refletidas em iniciativas e empenhos. A inércia, embora, parece impossível de ser superada e vemos que mudança e construção de novos hábitos demandam esforço que poucos estão dispostos ou sequer são capazes de assumir. O ídolo torna-se, deste modo, um alívio, uma descarga moral e da consciência de maneira que, ao observá-lo, nele se vê refletida a concretização dos seus desejos, eximindo-se da obrigação própria da busca da realização das vontades.

Hoje há uma ferocidade dos padrões estéticos e quem os atenda torna-se celebridade. Quem não os atende conforma-se ou paga pela - cara - possibilidade de, gradativamente, aproximar-se do estranho padrão e ter seu rosto mais parecido com a beleza imposta. É uma fórmula que tornam célebres pessoas diversas por puro joguete da sorte genética.

Escrito por Rafael

6 de novembro de 2008, 21:10

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Mudança dá trabalho

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Tive a iniciativa, enfim, de buscar uma solução para o problema que estive enfrentando para importar os textos que estavam no meu antigo blog para cá. Bom, recuperados os textos, posso dizer: não consegui resolver o problema! Em dado passo da importação, o WordPress retorna uma mensagem dizendo que não é possível estabelecer uma conexão segura com o Blogger - serviço que hospeda meu antigo blog - e que isso impede o prosseguimento de todo processo.

Procurei ajuda no IRC e apontaram a possibilidade de que o mod_ssl do meu provedor não estivesse habilitado e isto seria, então, a causa do erro. Conversei com o Cris e ele descobriu que o módulo estava corretamente instalado e funcionando, o que nos trouxe de volta ao ponto em que não há vestígios aparentes da possível causa. Realizei alguns testes locais e, diferentemente da situação até agora, consegui importar com sucesso todos os textos e comentários. Decidi exportar e reimportar os dados, a fim de facilitar a coisa toda e aqui estão todos os textos.

Ainda é necessário vários ajustes: o WordPress importou as tags do Blogger como sendo categorias, lá as palavras-chave eram separadas por espaços e aqui por vírgulas - o que gera uma certa bagunça com palavras compostas que não deveriam ser -, depois da importação algumas datas estão aparecendo incorretas e o IE não está mostrando coisa alguma exceto o nome do blog e o título do texto mais recente. Aos pouquinhos as coisas estão se ajeitando e espero que esse período de ajustes seja não apenas transitório, mas também breve.

Escrito por Rafael

31 de outubro de 2008, 1:01

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Aurora dos Contrários

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O dia de hoje é um dia diferente. E não pense que não considero o fato de que ainda são oito horas da manhã. Ontem foi um dia quente, muito quente e a noite seguiu o juízo, sem aliviar muito a quentura. Apesar de ainda ser madrugada, o alvorecer rompeu breve e clareou todo o ambiente rapidamente. Não eram seis horas e tudo já estava brilhante, refletindo a irradiação do sol. Estamos na primavera e não tenho certeza se é equinócio.

Todos acordaram de bom humor, exceto eu que nem dormi. As contradições do dia começaram logo por aí: virei a noite e não me sinto nem sonolento nem cansado, mesmo que tenha a sensação de que paira uma nuvem em frente a meus olhos. Minha mãe preparou minha irmã mais nova pra ir a escola e meu pai já estava de pé. Surgiram umas brincadeiras e provocações. Minha irmã mais velha tocou o interfone, ainda eram quinze pras sete e eu fiquei mesmo intrigado com o horário que ela acordou. A caçula estava fingindo dormir na cama e brincamos um bocado antes de a hora ameaçar chegarmos atrasados.

Ao sair de casa, percebi tudo meio cinza e pude ver uma chaminé enorme jogando fumaça e fuligem no céu. Dois carros passaram correndo e, então, eu consegui sair com o carro. O trânsito estava, fora do habitual, com um quê de vazio ainda que, aparentemente, mais violento que o rotineiro. Via os carros urrarem agressivos e seus donos lutando arriscadamente por um palmo de vantagem. E as ruas não estavam cheias. Preveni alguns acidentes dando passagem aos mais apressados. No meu som, o aleatório, de birra, estava tocando músicas contagiantes e não pude saltar nenhuma porque todas agradaram. E a manhã não está quente. E também não está fria. Está indecisa: nem quente, nem fria nem um meio termo.

Faz bastante tempo que não acordo feliz. Feliz sem motivo algum e, quando você se dá conta, se pergunta por que, acha graça nisso e pode, assim, ser mais feliz um pouco. Hoje teria sido assim. Teria se eu tivesse, de fato, acordado. Mas não, eu ainda estou acordado, ainda não dormi. Ou talvez ainda durmo e os contrastes do dia possam ter mais um chance pra se apaziguarem antes de amanhecer.

Escrito por Rafael

16 de outubro de 2008, 8:51

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Ensaio sobre a cegueira

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Fui ontem ao cinema assistir o filme Ensaio sobre a cegueira, adaptação do livro homônimo de José Saramago. Como resultado, a produção conseguiu me surpreender positivamente mesmo face a alta expectativa que tinha sobre a qualidade do filme. As boas atuações e o excelente roteiro foram decisivos para o sucesso da obra. Pretendo discutir a seguir minhas impressões sobre o filme e reflexões decorrentes. Caso não o tenha assistido ainda e não queira saber do enredo, não prossiga a leitura.

Uma das exigências feitas por Saramago para aprovar a adaptação para o cinema foi que a história filmada não se desvelasse em um país que pudesse ser reconhecido, permitindo ao imaginário a idealização da ocorrência da fábula em qualquer lugar. Ficou bastante claro para mim, porém, que um dos sítios de filmagens era São Paulo, justamente na cena inicial em que o motorista japonês perde a visão.

No filme, dirigido por Fernando Meirelles, é narrada a evolução de uma epidemia desconhecida que rapidamente se espalha pela cidade, esbranquiçando a visão de todos que atinge, deixando-os subitamente cegos. A cidade logo passa a viver um estado de barbárie que se estabelece com a generalização da “cegueira branca”. Porém, no início da trama em que os primeiros infectados são postos em quarentena em uma espécie de cárcere, já fica evidente a desumanidade latente nos homens a partir do descuidado com que os doentes são tratados, os maus tratos que advêm do temor da infecção e a falta de tato para gerência da situação.

Daí em diante, os fatos nos levam a refletir que um desequilíbrio mínimo na ordem estabelecida é suficiente para que os homens abandonem seu estado civilizado em troca da busca de garantia de sobrevivência, seguindo seus instintos mais básicos. O que parece contraditório a princípio neste pensamento é a impressão que a selvajaria que se instaura é responsável pela ameaça a sobrevivência coletiva e responsável então pelo comportamento desesperado para se garantir a sobrevivência. Ora, sendo a selvajaria fruto do comportamento desesperado, ela nasceria, dessa forma, como conseqüência de seu próprio efeito! A saída para tal quebra-cabeça mental pareceu-me ser a latente desumanidade que existe no homem, permitindo que ele aja instintivamente em uma situação adversa.

Uma passagem que me impressionou bastante foi as cenas em que os integrantes da Ala Três negociam as mulheres pertencentes a outras alas em troca de comida. O escambo de comida por jóias, que não poderiam ter qualquer valor ali senão sentimental, pareceu burlesco diante da nova moeda. A tensão gerada pela possibilidade de cessão a chantagem até o momento dos estupros, para mim, foi bastante desgastante. Eu senti toda angústia dos personagens e agonizei junto a eles. Além dessas, a rápida cena que dá um panorama da higiene do local é surpreendente! Toda aquela sujeira e fezes espalhadas pelos cantos transmitiram um asco desesperador e senti-me, mais uma vez, gasto.

Em vista do enfoque na condição psicológica da personagem principal, a única capaz de enxergar, eu achei que a traição do marido não tomou a devida proporção e foi superada de forma simples e rápida. Ao final, gostei da mensagem esperançosa que a união daquele pequeno grupo dá em meio a tanta descrença e fui surpreendido com a reabilitação do primeiro contaminado, que sugere o mesmo destino aos outros. Adorei a espontaneidade com que a doença surge e desaparece, de forma tão passageira e, mesmo assim, tão destruidora. O sentimento final é positivo pelo casamento e carinho mútuo do grupo mesmo que eu me questione como seria viver em uma cidade completamente arrasada, ainda que enxergando. Aliás, eu acho que a angústia principal da personagem de Julianne Moore era justamente poder ver o que se passava.

Escrito por Rafael

3 de outubro de 2008, 0:40

De mudança

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Ainda de mudanças. Não terminei de configurar o sistema de gerenciamento do blog, WordPress, e nem comecei a traduzir o tema que escolhi para dar cor a isto aqui. Não tive tempo para descobrir o erro que tem impedido a importação dos textos publicados no antigo lar, ColdFire, hospedado no Blogger.

Por enquanto, as saudações aos antigos e novos leitores e a alegria de poder publicar textos em um ambiente mais pessoal, flexível e bonito.

Escrito por Rafael

27 de setembro de 2008, 2:47

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